Fonte de carbono barata: como reduz o OPEX da fermentação

Entenda como fontes de carbono de baixo custo podem reduzir o OPEX da fermentação e quais desafios existem no uso de resíduos agroindustriais.
fonte de carbono

 A escolha da fonte de carbono é uma das decisões que podem influenciar diretamente a economia de um processo fermentativo. O meio de fermentação precisa fornecer nutrientes para o crescimento e a atividade dos microrganismos e, dependendo do processo, pode representar até 70% do custo do produto final, segundo a Embrapa.

Por isso, substituir matérias-primas refinadas por alternativas de menor custo, como melaço e determinados resíduos agroindustriais, pode abrir espaço para reduzir o custo do processo. Mas a conta não deve considerar apenas o preço de compra do substrato. É necessário avaliar também rendimento, produtividade, necessidade de pré-tratamento, estabilidade do cultivo e impacto nas etapas posteriores da produção.

Nesse contexto, a biotecnologia permite aproximar a matéria-prima disponível das características do microrganismo. A seleção, adaptação e engenharia de leveduras podem ampliar a capacidade de utilização de diferentes fontes de carbono e contribuir para a conversão de substratos alternativos em produtos de maior valor agregado.

Como o custo de substratos refinados compromete as margens da fermentação industrial?

Uma fonte de carbono é um dos componentes essenciais do meio de fermentação. Ela fornece carbono que pode ser utilizado pelos microrganismos para crescimento, geração de energia e formação de metabólitos de interesse. 

A Embrapa cita carboidratos provenientes de cana-de-açúcar, frutas, malte, melaço e materiais lignocelulósicos, além de óleos vegetais e álcoois, entre as possibilidades de fonte de carbono.

Em processos industriais, o custo dos componentes do meio pode ter impacto significativo na economia da fermentação. 

Uma revisão sobre o desenvolvimento de meios para fermentações industriais aponta que os componentes do meio podem representar até 30% do custo total de produção em determinados processos, especialmente em produtos de grande volume e menor valor agregado.

Isso ajuda a explicar por que matérias-primas refinadas, embora ofereçam maior padronização e controle sobre a composição do meio, podem representar uma oportunidade de otimização econômica. A questão é encontrar alternativas que mantenham o desempenho biológico necessário ao processo.

O desafio está justamente no equilíbrio entre custo e desempenho. Um substrato mais barato não necessariamente resulta em um processo mais barato se exigir etapas adicionais de tratamento ou provocar queda no rendimento e na produtividade.

Por isso, a avaliação de uma nova fonte de carbono precisa considerar o custo do processo como um todo, e não apenas o preço pago pela matéria-prima.

Por que a transição para resíduos agroindustriais e melaço pode reduzir o OPEX?

Resíduos agroindustriais são estudados como matérias-primas alternativas para processos biotecnológicos porque podem fornecer carbono, nitrogênio e outros nutrientes necessários ao crescimento microbiano. Entre os exemplos estão resíduos provenientes do processamento de cana-de-açúcar, frutas e vegetais, além de materiais amiláceos e lignocelulósicos.

O interesse econômico está relacionado à possibilidade de utilizar materiais menos refinados e, em alguns casos, de menor custo como feedstocks para produção de compostos de maior valor agregado.

Revisões sobre bioprocessos baseados em leveduras apontam justamente o uso de resíduos e matérias-primas alternativas como uma estratégia de valorização de recursos e redução da dependência de açúcares altamente refinados.

O melaço é o maior exemplo de matéria-prima que pode ser utilizada como fonte de carbono em processos fermentativos. A própria Embrapa cita o melaço entre os materiais que podem fornecer carbono para meios de fermentação.

Mas existe uma ressalva importante: resíduo agroindustrial não é sinônimo de substrato pronto para fermentação. A composição pode variar de acordo com a origem, o processamento, a região e a sazonalidade. 

Além disso, determinados resíduos podem conter compostos que dificultam o crescimento microbiano ou exigir etapas de hidrólise e pré-tratamento para tornar os açúcares disponíveis.

Por isso, antes de substituir uma matéria-prima refinada, é necessário avaliar:

  • concentração e composição dos açúcares;
  • disponibilidade e regularidade do fornecimento;
  • presença de compostos potencialmente inibidores;
  • necessidade de pré-tratamento;
  • suplementação de nutrientes;
  • rendimento e produtividade da fermentação;
  • impacto sobre as etapas de recuperação e purificação do produto.

Essa análise também precisa considerar a cadeia de fornecimento. A possibilidade de trabalhar com diferentes matérias-primas pode contribuir para reduzir a dependência de um único insumo e aumentar a flexibilidade da operação. Para aprofundar esse aspecto, veja também o conteúdo sobre cadeia de suprimentos.

Como projetar leveduras adaptadas para converter uma fonte de carbono barata em ativos de alto valor?

Encontrar uma matéria-prima de baixo custo é apenas uma parte da equação. O microrganismo precisa ser capaz de utilizar os componentes presentes nesse substrato e convertê-los de maneira eficiente no produto desejado.

Essa questão é especialmente importante quando o processo utiliza resíduos agroindustriais, que frequentemente apresentam misturas de diferentes fontes de carbono. A revisão publicada na Applied Microbiology and Biotechnology destaca que diferentes espécies e até diferentes cepas de leveduras apresentam capacidades distintas de utilização de substratos, produtividade e rendimento.

A Saccharomyces cerevisiae, por exemplo, é uma das principais plataformas microbianas utilizadas pela indústria, mas sua capacidade natural de utilizar determinadas fontes de carbono é limitada. Em hidrolisados provenientes de resíduos ricos em pectina, por exemplo, ela não consegue metabolizar naturalmente alguns dos principais açúcares presentes, como ácido D-galacturônico e L-arabinose.

É nesse ponto que entram estratégias como seleção de cepas, evolução adaptativa e engenharia metabólica. Essas abordagens podem ser utilizadas para ampliar a capacidade de utilização de substratos, aumentar a tolerância a compostos inibidores ou direcionar o metabolismo para a produção de determinados compostos.

A engenharia metabólica de leveduras também já foi estudada para ampliar a utilização de açúcares presentes em biomassas lignocelulósicas. No caso da xilose, por exemplo, diferentes estratégias de engenharia de S. cerevisiae foram desenvolvidas para superar limitações relacionadas ao metabolismo desse açúcar.

Isso significa que a escolha da matéria-prima e a escolha da cepa não devem ser tratadas como decisões independentes. Quanto mais complexa for a composição do substrato, maior pode ser a importância de selecionar ou desenvolver um microrganismo compatível com aquela matéria-prima.

A BIOINFOOD também trabalha com estratégias relacionadas à evolução adaptativa, que podem fazer parte do desenvolvimento de microrganismos mais adequados às condições específicas de um processo.

Para empresas que precisam acessar esse tipo de desenvolvimento sem estruturar internamente toda a capacidade de pesquisa, o P&D terceirizado em biotecnologia pode ser uma alternativa para apoiar etapas de desenvolvimento e validação.

De que forma a flexibilidade de matérias-primas protege a operação contra a volatilidade do mercado?

A utilização de matérias-primas alternativas pode trazer uma segunda vantagem além da possibilidade de redução de custos: maior flexibilidade na operação.

Quando um processo depende de uma única matéria-prima, alterações no preço, disponibilidade ou qualidade desse insumo podem afetar diretamente a produção. Ter alternativas tecnicamente validadas permite avaliar diferentes opções de abastecimento de acordo com as condições do mercado.

Essa flexibilidade, porém, não significa simplesmente trocar um ingrediente por outro. Cada substrato apresenta características próprias e pode exigir ajustes no meio, na cepa e nos parâmetros de fermentação. Estudos sobre leveduras e resíduos agroindustriais destacam justamente a necessidade de considerar a diversidade dos substratos e os diferentes desafios associados à sua conversão.

A estratégia mais robusta é, portanto, desenvolver um processo capaz de lidar com a variabilidade sem comprometer os parâmetros críticos de produção.

Isso pode envolver a seleção de cepas mais tolerantes, adaptação do microrganismo, controle da composição do meio e otimização de condições como pH, temperatura e alimentação do cultivo. A literatura sobre utilização de resíduos por leveduras aponta a otimização das condições de cultivo e do processo como parte importante da viabilidade da abordagem.

No fim, a vantagem não está simplesmente em encontrar o resíduo mais barato. Está em desenvolver um sistema no qual uma matéria-prima alternativa possa ser convertida de forma previsível, eficiente e economicamente viável.

Perguntas frequentes

O que é uma fonte de carbono e qual o seu papel na fermentação industrial?

A fonte de carbono é um componente do meio utilizado pelo microrganismo durante a fermentação. Ela pode fornecer carbono para crescimento, geração de energia e formação de metabólitos. Entre as possibilidades citadas pela Embrapa estão carboidratos provenientes de cana-de-açúcar, frutas, malte, melaço e materiais lignocelulósicos, além de óleos vegetais e álcoois.

Como a biotecnologia viabiliza o uso de matérias-primas alternativas e de baixo custo?

A biotecnologia pode contribuir por meio da seleção de microrganismos, evolução adaptativa, engenharia metabólica e otimização do processo. O objetivo é encontrar ou desenvolver cepas capazes de utilizar os componentes presentes na matéria-prima e convertê-los de maneira eficiente no produto desejado.

Qual é o impacto financeiro de substituir açúcares refinados por resíduos agroindustriais?

O impacto varia de acordo com o processo. Embora resíduos agroindustriais possam ser alternativas interessantes, o cálculo deve considerar não apenas o preço da matéria-prima, mas também pré-tratamento, suplementação, rendimento, produtividade e etapas de recuperação do produto.

Em um estudo econômico sobre produção de ácido propiônico, por exemplo, diferentes fontes de carbono apresentaram impactos distintos no custo por quilograma do produto, mostrando que o preço do substrato e sua capacidade de conversão precisam ser avaliados em conjunto.

Uma matéria-prima mais barata sempre reduz o OPEX?

Não. O custo menor da matéria-prima pode ser compensado por gastos adicionais com pré-tratamento, controle de qualidade, suplementação ou purificação, ou ainda por uma redução no rendimento do processo. Por isso, a comparação deve considerar o custo total do bioprocesso.

Como transformar uma fonte de carbono barata em vantagem competitiva?

Reduzir o OPEX da fermentação não significa simplesmente substituir um açúcar refinado por um resíduo mais barato. O ganho econômico depende da capacidade de transformar essa matéria-prima em produto com desempenho consistente.

Resíduos agroindustriais e melaço apresentam potencial como fontes alternativas de carbono, mas sua utilização exige avaliação da composição, disponibilidade, possíveis inibidores e capacidade do microrganismo de metabolizar os substratos presentes.

Quando a seleção da matéria-prima é combinada com uma levedura adequada e com estratégias de engenharia metabólica e otimização de bioprocesso, a indústria pode ampliar as possibilidades de uso de substratos alternativos e buscar maior eficiência econômica.

É justamente nessa interseção entre matéria-prima, microrganismo e processo que a biotecnologia pode gerar valor.

Conheça as soluções da BIOINFOOD para desenvolvimento e otimização de microrganismos e bioprocessos.

- Sobre o autor

Biológico, Doutor em Genética pela UNICAMP. Foi Pesquisador do Departamento de Genética do IB-UNICAMP e Pesquisador em Biologia Sintética na GranBio Celere por quatro anos. Liderou projetos de P&D apoiados pela FAPESP (Auxílio à Pesquisa Regular – UNICAMP) e ISI Biomassa (Senai – GranBio). É sócio co-fundador da BIOINFOOD.

Gleidson Teixeira

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